Devido ao calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa, isto é, o primeiro domingo depois da lua cheia depois do equinócio da primavera que é no dia vinte de Março, e que perdura até aos nossos dias, todas as festas móveis são, este ano, bastante mais cedo daquilo a que estamos habituados.
Como a Páscoa determina, em parte, todo o calendário festivo temos este ano as festas do Divino Espírito Santo já no próximo fim-de-semana. Assim, a meio da primavera e ainda longe das tardes quentes do verão, iremos ter nos coretos e nas procissões as nossas filarmónicas a encher-nos os ouvidos e a alma com os seus afinados acordes, ensaiados nas longas noites de inverno, de salientar, como é óbvio, o comovente hino do Espírito Santo.
Preparam-se já os impérios e os irmãos, os que levam a coroa e os que colaboram, no arranjo das capelas, nas pinturas necessárias nas paredes, portas e janelas para dar um ar de limpo e lavado para a festa, na organização das sopas, tão saborosas, na contratação das carnes e do vinho, no arrolamento para as rosquilhas, nas licenças para o fogo, sem foguetes a festa não seria a mesma, no polimento cuidado da coroa, enfim, nos afazeres necessários para que a festa seja a melhor.
Este ano será em Maio. Ainda antes dos meados de Maio, apesar de depois, para não haver sobreposições, ainda continuarem a haver impérios nos fins-de-semana seguintes.
É uma época de festa nas nossas ilhas. Sem duvida a principal festa açoriana celebrada em todas as ilhas, em todas as freguesias e em todos os lugares. Ninguém quer ficar atrás. Freguesias há, que tem dois e mais impérios. Todos fazem a sua festa, de preferência em dias diferentes, mas também os há que mesmo sendo na mesma freguesia a celebram no mesmo domingo. Aqui a logística torna-se mais complicada e as cerimónias, por vezes, mais demoradas, porque qualquer império que se preze gosta de ter uma filarmónica para abrilhantar a sua procissão e a sua festa, e então, em certas ocasiões, torna-se difícil conciliar as necessidades de todos. Mas tudo se resolve e as festas acontecem.
Uma das principais preocupações da organização ou do irmão que leva a coroa é o tempo meteorológico. Mesmo quando as festas são mais tarde, no mês de Junho, por vezes a chuva ou vento prega as suas partidas impossibilitando ou dificultando a ida da coroa à igreja, em procissão, quanto mais este ano que estamos quase no princípio de Maio e o tempo ainda se mostra instável.
Se chove é frustrante para todos. Para os irmãos que labutaram nas semanas anteriores para que tudo corresse bem e para os fiéis em geral que pretendem levar os seus açafates de rosquilhas nas procissões dos seus lugares. A festa perde todo o seu esplendor. É a procissão que não se realiza, são os convidados que, após saborearem as sopas e a carne assada, se vão embora, é a filarmónica que não toca no arraial, em coreto ou em espaço enfeitado com muitas fitas e bandeiras, são as dificuldades para o ponto alto da festa, que é a distribuição das rosquilhas, portanto, resta esperar e desejar que o tempo esteja bom, de preferência uma tarde radiosa de sol.
Embora com os tempos actuais os hábitos se vão modificando, ainda perdura uma certa tradição de estrear a roupa de verão pelo Espírito Santo. É nessa altura que as meninas casadoiras vestiam pela primeira vez os seus vestidos finos e leves para a época estival. Este ano, se não levarem agasalho, arriscam-se a passar a festa com pele de galinha, porque o tempo ainda não aqueceu o suficiente para leves farpelas.
Vamos desejar que o tempo ajude os senhores mordomos e que as festas do Divino Espírito Santo, uma vez mais nos tragam a alegria e a fraternidade necessárias para as celebrar. É a festa da partilha do pão e da carne, para isso é importante o nosso espírito estar aberto ao amor e à conciliação.