- Cheguei - disse Genuíno Madruga pela segunda vez.
Finalmente em terra, na sede de concelho da sua freguesia natal, e após breve passagem pelo porto de S. João, a terra que o viu nascer, depois de quase dois anos de mar e portos longínquos, de tempestades e bonanças, de ventos ciclónicos e mastro partido, de abraços de amigos e chefes de estado, de escuteiros em tantas paragens, de encontros com pescadores indígenas e cônsules influentes, de palestras em escolas e universidades, depois de levar o nome dos Açores a todos os confins da terra, eis que regressa para junto de nós o aventureiro Genuíno.
Muito terá ele para nos contar, e nós ávidos de o ouvir.
Quase tudo o que era para se dizer sobre esta aventura, já foi publicado nos jornais e transmitido pelas rádios e televisões, no entanto não poderia deixar passar, como grande admirador que sou de Genuíno Madruga, esta ocasião sem deixar, publicamente, de felicitá-lo pelo grande feito, jamais, até hoje, realizado por um português, açoriano e picoense.
Foi com um misto de nostalgia e inveja (saudável) que o vi partir para esta segunda viagem de circum-navegação, e é também com inveja (saudável) que o vejo regressar ao porto que o viu abalar.
Muito gostaria eu de ter ido com ele, mas aí o feito perderia a qualidade pois deixaria de ser solitário, para, com ele, partilhar os conhecimentos adquiridos junto dos diversos povos do mundo.
- Isto não é para qualquer um – disse o Genuíno.
Inteiramente de acordo. Realmente uma aventura destas não se compadece com faltas de conhecimentos náuticos, de preparação física e mental, de capacidade de improviso (veja-se as mil e novecentas milhas efectuadas com a retranca a servir de mastro). Até os conhecimentos culinários que são necessários para providenciar uma alimentação que mantenha o corpo sadio e forte.
Nos primeiros passos da navegação era necessário conhecer bem as estrelas, saber navegar com o seu auxílio e do sextante, hoje os meios são mais modernos e eficazes, mas é preciso saber manejar um computador, um GPS, um rádio, um dessalinizador, um piloto automático, um gerador, etc. Para isso é necessário um estudo aprofundado de todos e cada um dos aparelhos e, como máquinas que são e podem avariar, é também necessário, como os nossos antepassados, saber navegar pelas estrelas e pelo sextante.
Não é para qualquer um…
São necessários muitos anos de aprendizagem e prática de mar para alguém se aventurar a uma viagem deste género.
Há que desenvolver a capacidade de saber estar dias e semanas ou mesmo, mais de um mês sem ver ninguém, sem ter alguém para conversar em absoluta solidão tendo por companhia apenas o marulhar da água a deslizar pelo costado do Hemingway e o grito rouco dum albatroz ou duma cagarra.
Há que ter a tenacidade de não desistir perante as dificuldades e transformá-las em incentivos para continuar viagem.
Nos dias tempestuosos em costas da Patagónia, navegando com ondas destinadas a partir tudo, há que ter a calma e serenidade suficiente para manter a proa no melhor rumo, por vezes, acredito, exausto, faminto, sem tempo nem modo para dormir… Realmente não é para qualquer um.
Bem hajas, Genuíno, porque a tua têmpera é genuína. Como diria o professor Ruben Rodrigues, nasceste do magma que compuseram estas ilhas dos Açores e que produzem heróis como tu.