A dois meses da estreia na II Divisão B o Futebol Clube Madalena (FCM) trabalha a todo o gás para preparar o novo desafio. O clube atravessa uma fase de profunda reestruturação administrativa e de organização de plantel, para conseguir enfrentar as novas exigências. Ernesto Ferreira, presidente do Clube, em entrevista a Ilha Maior fala sobre o que é preciso mudar no Madalena, esconde o jogo quanto ao plantel da próxima temporada, assume que não quer ser o bombo da festa na II Divisão e que não vai continuar na presidência após o final do mandato
Ilha Maior: Depois da vitória na Série Açores e na liguilha o FCM vai enfrentar na próxima temporada uma competição diferente. Qual o trabalho que está a ser desenvolvido para que o clube realize uma boa temporada no ano de estreia na II Divisão B?
Ernesto Ferreira: Começámos por definir os objectivos a alcançar. Agora, estamos a ponderar o que é necessário fazer em termos da construção de plantel e no plano organizativo para efectuarmos um campeonato com dignidade. Temos de pensar, não só no quadro de jogadores, mas também em organizar o FCM para as exigências da pré-época com vários jogos de preparação. Esse é um trabalho difícil, atendendo a que nas ilhas mais próximas do Pico não há equipas disponíveis para colaborar na preparação da nossa equipa. A temporada na II Divisão será desgastante. Teremos pela frente um Campeonato de 38 jornadas, exceptuando os jogos da Taça de Portugal. Tudo isso implica um cuidado muito grande nesta preparação e temos plena consciência que estar na II Divisão é muito diferente e exige mais organização do que a Série Açores.
IM: Essencialmente o que vai mudar de imediato?
EF: A nossa intenção é mudar muita coisa, mas podemos não conseguir fazê-lo por diversas razões. Essa, talvez, seja a nossa realidade. Com base nas pessoas que temos na direcção e outros colaboradores vamos tentar criar uma equipa dirigente semi-profissional, atendendo a que a II Divisão vai exigir muitas horas de dedicação ao clube, sendo certo que as nossas limitações de ordem financeira não permitem avançar com a constituição de uma estrutura muito pesada. Não podemos fazê-lo. A subida de Divisão obriga a mais rigor, mais dedicação e maior disponibilidade porque precisamos preparar, com antecedência, todas as deslocações ao Continente, Madeira e São Miguel. As coisas não podem continuar a ser feitas com o amadorismo que existiu até ao momento.
IM: Essas novas exigências vão obrigar, então, a que o clube enverede pela profissionalização do departamento de futebol sénior?
EF: Estamos a trabalhar nessa área. Neste momento estamos com algumas dúvidas de quem serão as pessoas que vão estar envolvidas no nosso projecto. Aguardamos respostas de algumas empresas, onde essas pessoas exercem a sua actividade profissional e que poderão ser libertas para dar o seu contributo ao FCM. Em relação ao plantel estamos, também, a trabalhar porque sabemos que, para fazer 38 jornadas mais a Taça, precisamos de um grupo mais numeroso, mais completo e mais equilibrado do que tivemos na época que agora terminou.
IM: O plantel ficará constituído por quantos jogadores?
EF: Vamos ficar com uma equipa de 24 a 25 elementos. Todas estas novas exigências obrigam-nos a um grande exercício de contabilidade.
IM: O Orçamento do clube vai subir muito comparativamente com o do ano passado?
EF: É evidente que em relação ao da época passada o Orçamento tem de subir alguma coisa. Sem querer ser exagerado vamos ter mais 50 por cento de encargos.
IM: Qual será, então, o Orçamento da equipa sénior?
EF: Ainda não sabemos, estamos a fazer contas, mas esta semana vamos reunir a direcção para apresentar o Orçamento. Provavelmente na primeira semana de Julho vamos debater em Assembleia-Geral o Orçamento de todo o clube.
IM: Quais os sectores da equipa que o treinador pretende reforçar?
EF: Não vou dizer quais são. Dentro dos objectivos do FCM, a nossa preocupação passa por definir uma equipa mais equilibrada do que a do ano passado. O plantel que se sagrou campeão da Série Açores e venceu a liguilha de acesso à II Divisão B já foi mais equilibrado do que o do ano anterior. Para a próxima época temos, não só de manter o equilíbrio, como ter um maior número de jogadores com características semelhantes para a equipa poder estar preparada para as lesões e castigos. Está tudo a ser preparado dentro de uma perspectiva de realizarmos um campeonato que dignifique o futebol do Pico e o FCM. Não queremos ser o bombo da festa da II B. Assumimos que somos ambiciosos…
IM: Essa ambição vai até onde?
EF: Queremos fazer um bom campeonato com alguma tranquilidade, sabendo que esta prova é muito mais competitiva do que a Série Açores. Não há comparação possível. Além disso, temos consciência que fizemos bons jogos o ano passado com equipas de nível superior, mas não nos esqueçamos que isso foi apenas um jogo com cada uma dessas equipas. Agora, vamos ter quase 40 jogos com equipas desse nível, o que é muito diferente. Não pudemos pensar que o plantel do ano passado, com mais um ou dois elementos, resolverá. As coisas não são bem assim. Por isso, temos de apostar numa equipa equilibrada para tentar terminar entre os dez primeiros lugares. Esse é o nosso objectivo.
IM: Essa não é uma pretensão ligeiramente alta para quem vai estrear-se na II Divisão?
EF: Este objectivo não é utópico.
IM: O plantel será, então, preparado para atingir essa meta?
EF: Estamos a criar uma equipa para ficar entre os dez primeiros, porque queremos mantermo-nos na II Divisão. Portanto, pretendemos fugir à eventual liguilha se, entretanto, não se conseguir acabar com ela. Espero que, na próxima Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), haja força para anular essa norma que tanto penaliza os clubes açorianos.
IM: Ao nível de estrutura organizativa, o FCM está preparado para atingir os seus objectivos?
EF: O FCM está ser preparado para tal. Não podemos baixar os braços e temos de trabalhar ainda mais do que fizemos até aqui. Todos os dirigentes têm de ter essa consciência. Temos de nos orgulhar de ter um corpo directivo que acorre quando é preciso. Mas é preciso acorrer mais. Não podem colaborar só quando é para fazer festa. É preciso que todos colaborem no trabalho diário de organização que não pode estar a cargo de uma única pessoa. Quando cheguei ao clube há três anos não tinha experiência nenhuma de futebol. Vibrava com as vitórias do FCM e ficava triste com as derrotas. Só comecei a ter contacto com a realidade do futebol quando fui para a direcção. Nessa altura tudo foi uma aprendizagem. Tem vindo a ser desde então. Hoje as coisas estão melhores do que estavam há três anos e daqui a um mês ou dois têm de estar melhores do que estavam ontem. Há muitas coisas que precisávamos para ir melhorando, principalmente ao nível da sede e das infra-estruturas do campo. Algumas são possíveis, outras não. Vamos tentar conseguir a curto prazo ter todas as condições, sendo certo que há sempre grandes limitações. Muitas dependem de nos cederem espaços no Campo Municipal, porque, por exemplo, temos necessidade de melhorar as condições físicas do gabinete de massagista e médico.
IM: Num desses espaços o clube pretende instalar um ginásio de manutenção?
EF: Essa é uma ideia, mas tudo depende da disponibilidade da Câmara Municipal da Madalena em ceder ou não a estrutura. Além desse aspecto é preciso melhorar ainda a questão administrativa. Estamos a atingir um nível elevado em que um único funcionário começa a sentir dificuldades para dar resposta a tudo. Temos de processar mensalmente os vencimentos e prémios de jogo, proceder ao envio de toda a correspondência para a Associação de Futebol da Horta e para a FPF. Vamos tentar admitir mais um funcionário aderindo aos programas especiais para os jovens. De resto a entrada na II Divisão vai obrigar mais gente a trabalhar. Provavelmente vamos ter de contratar um secretário técnico que acompanhe a equipa no dia a dia e temos de ter um seccionista que trate dos equipamentos. Há muita necessidade de colaboração. Precisamos que os nossos colaboradores e amigos, que estão eufóricos com a subida do Madalena, compreendam que está na hora de darem mais algum contributo. É inevitável termos mais apoio, não só dos que aparecem para trabalhar. Aproveito, aliás, para apelar às pessoas para que nos apoiem ainda mais no restaurante que vamos abrir na próxima Festa de Santa Maria Madalena. Aqueles são dias muito intensos e exigem muito dos que colaboram. Além disso, a festa este ano vai coincidir com o início da preparação da equipa que será apresentada, em conferência de imprensa, no dia 18 de Julho. Vamos todos trabalhar para fazer o máximo de dinheiro possível.
IM: Em relação a saídas e entradas do plantel, a direcção já definiu quem não regressa ao clube depois das férias e quem vai chegar de novo?
EF: No final da temporada contactámos todos jogadores que estiveram no plantel na época passada. Desejámos umas férias agradáveis e ficámos com os contactos para que pudéssemos formalizar eventuais acordos para a próxima temporada.
IM: Portanto, antes das férias ninguém foi dispensado?
EF: É evidente que já sabíamos na altura quais os que nos interessavam.
IM: Quem são esses jogadores?
EF: No final de todo este processo vamos dizer.
IM: Em relação aos novos jogadores, já está definido o quadro dos reforços para a próxima temporada?
EF: No final de todo este processo vamos anunciá-los. Compreendo que a comunicação social esteja interessada em divulgar. É isso que faz as pessoas lerem os jornais, mas gostaríamos que respeitassem este nosso timing. Já ouvi falar em vários nomes, mas não confirmo nenhum deles.
IM: Será um plantel formado por jogadores com experiência dos Açores?
EF: Teremos em consideração o facto de alguns jogadores já conhecerem a realidade dos Açores, bem como a sua qualidade futebolística.
IM: Por que razão faz tanto mistério em anunciar o nome dos jogadores que vão fazer parte do plantel na próxima temporada?
EF: Não é mistério. Só se deve falar nos nomes oficialmente depois de estar tudo preto no branco. As fases de contratações passam sempre por contactos e acabam em assinaturas. É mais prudente anunciar o plantel quando tivermos os documentos assinados.
IM: Porquê essa prudência?
EF: Porque no futebol há muitas coisas que são verdade numa hora e na seguinte já não são.
IM: A equipa técnica vai ser mexida ou vai manter a estrutura da última temporada?
EF: Ainda temos algumas dúvidas em relação ao treinador adjunto. Convidámos o António Manuel Andrade, que reúne condições pessoais para continuar. No entanto, ele tem algumas dificuldades em cumprir o que desejamos porque está ligado profissionalmente a uma empresa local. Por respeito à empresa e às naturais expectativas do António Manuel temos de ponderar se é possível ou não a sua continuidade. O ideal seria que a empresa o dispensasse durante algum tempo. O assunto já foi colocado à entidade patronal e aguardamos por uma resposta.
IM: Por outro lado, já está confirmada a entrada de um novo massagista?
EF: Vamos ter outro massagista, uma vez que o actual não pode continuar, ao contrário do que era o nosso desejo. A exigência da II B obrigava a que nosso massagista optasse entre o trabalho que está a desenvolver na Santa Casa da Misericórdia da Madalena ou pelo FCM. Ele optou pela primeira hipótese. Temos pena porque fomos nós que trouxemos o Miguel Cordeiro para o Pico e gostamos do trabalho desenvolvido no clube. Espero que ele continue a dar colaboração noutras áreas.
IM: Já está definido o seu substituto?
EF: Sim. Contratamos um indivíduo mais experiente, com mais de 40 anos, e que ao longo da sua carreira tem trabalhado em diversos clubes.
IM: Quanto à pré-época já estão acertadas as linhas mestras dessa preparação?
EF: No dia 17 chegam os jogadores que não são do Pico. No dia 18 o plantel vai ser apresentado em conferência de imprensa, agendada para a sede do clube. Após essa apresentação realiza-se no Municipal da Madalena o primeiro treino. Depois seguem os treinos bi-diários. No dia 31 de Julho ou 1 de Agosto vamos fazer a apresentação oficial do plantel à massa associativa no Municipal da Madalena num jogo com o Santa Clara, que, depois de um estágio no Continente, viaja de propósito para o Pico para este encontro em que vai apresentar a sua equipa ao Grupo Central. É um momento importante no futebol açoriano. Nos dias 6 e 7 de Agosto vamos a São Miguel para participar no torneio do Santa Clara. Provavelmente ficaremos mais alguns dias para fazer treinos e jogos. Após o regresso ao Pico continuamos com a nossa preparação. Se houver hipótese de fazer mais algum jogo vamos estar disponíveis.
IM: Esta direcção ambiciona colocar o Madalena na II Divisão de Honra ?
EF: Esta direcção não tem essa ambição. Vamos tentar fazer o melhor possível na próxima época. Para já o que assumimos, ambiciosamente, é que queremos ficar entre os dez primeiros. Depois logo se vê como as coisas vão decorrer. Esta direcção, que termina o mandato no próximo ano, vai tentar fazer o melhor possível para deixar o clube preparado para outros puderem pensar nesse outro objectivo.
IM: No final da próxima época pretende recandidatar-se a mais um mandato?
EF: Não vou recandidatar-me e espero que as pessoas compreendam que está na hora de aparecerem outros sócios para assumirem os destinos do clube. Quatro anos à frente do FCM é muito desgastante, mas, ao mesmo tempo, foi estimulante. É evidente que todos têm gozo em ter estado nos corpos dirigentes em momentos históricos, mas o clube é tanto meu como de qualquer outro sócio. Espero que as pessoas compreendam que isto não é uma inevitabilidade. Ninguém é insubstituível e todos têm de dar o seu contributo. É altura de entrar gente mais nova.