Sidónio Bettencourt oferece o seu hino à vila baleeira
“Segredos, silêncios, memórias, medos, mistérios. Gente incompreendida de um só rosto, muitas vozes, um só tempo. Um só lugar: Lajes do Pico.” - Assim o diz a sinopse do CD “Baleeiros em Terra”, assim o vai preconizar o seu autor, na quinta-feira da Semana do Baleeiros, dia em que certamente o seu coração de neto de baleeiros estará agitado... porque está na sua Rua de Baixo.
"Baleeiros em Terra", é o título de uma reportagem do jornalista da RDP-Açores Sidónio Bettencourt, cujo lançamento, em suporte CD foi realizado quinta-feira, pelas 21h30, no auditório municipal das Lajes do Pico, integrado na Semana dos Baleeiros de 2004. Este foi um dos momentos relevantes do programa, ou não tivesse o cunho do conceituado jornalista português Adelino Gomes que veio apresentar o CD do trabalho do colega açoriano galardoado em 1995. Para além disso, o auditório encontrava-se repleto de pessoas, algumas tendo até que ficar de pé. No fim, inesperadamente, Carlos Alberto Moniz entrou de viola às costas e cantou duas canções – “dois abraços”, como disse, “oferecidos ao Sidónio e ao Adelino”.
Antes do lançamento do CD Sidónio Bettencourt, que se dedica também à poesia, e que já está a preparar o seu segundo livro, explicava ao JP que ia à procura nas Lajes do Pico, na Rua de Baixo "do conforto que só o colo das mães sabem dar aos seus filhos".
E explicou logo que este trabalho é a sua homenagem às Lajes do Pico: "É devolver ao povo da minha terra, da ilha da minha infância, o que ele me deu pela vida fora, nomeadamente o meu Nome. Por essa gente dou tudo..."
"Baleeiros em Terra" pertence ao género maior do jornalismo que é a " Grande Reportagem ". Corresponde a um trabalho de investigação que enveredou por vários níveis desde a cronologia histórica, documentos escritos, literatura, poesia, canções, testemunhos vividos pelos próprios baleeiros e outros intervenientes na acção, como os vigias, os armadores (indústria e comércio), subsistência eco-nómico - financeira das famílias, património arquitectónico, reli-giosidade , artesanato, gas-tronomia , construção naval, des-porto (regatas), etc. É, nas pala-vras do seu autor, "um trabalho que faz o trajecto desde as origens internacionais da baleação até à realidade de hoje já tendo em conta a observação de cetáceos, o “ Whale Watching "...
De uma afronta aos baleeiros a um hino à terra natal
Recuando no tempo, Sidónio Bettencourt explica ao JP as várias razões que subjazeram à feitura da reportagem "Baleeiros em Terra".
O facto de considerar que a reportagem que o jornalista Jacinto Godinho, da RTP 1, elaborou no Pico há muitos anos, era "uma afronta à dignidade dos Baleeiros e ao enquadramento histórico dos pescadores e baleeiros açorianos" terá também motivado Sidónio Bettencourt a acelerar o sonho que tinha há muito, mas que estava em "banho - maria " que era "escrever com os instrumentos da minha profissão, o meu hino, a minha carta de amor às famílias baleeiras de onde vim... (avós, tios, primos...) e à vila das Lajes que me deu, na infância, a força imagética para ser lutador pelas suas causas e a grandeza para, viajando, encurtar o isolamento."
Por outro lado, se esteve na base da feitura da reportagem a necessidade de um alerta aos académicos para o muito que falta fazer no plano antropológico e nos vários domínios da investigação, também esteve, segundo o jornalista, uma "revolta pacífica contra a inércia e a falta de amor-próprio por aquilo que temos de mais singular".
Depois é também um registo de memórias dos seus "heróis", muitos já falecidos.

Um processo eivado de sentimentos
"Utilizei as minhas férias grandes para captar mais de uma dezena de horas de som. Nas calmas, ao sabor do tempo. Na altura ainda era um processo de gravação analógico... com um simples gravador de cassetes... depois estru-turei toda a acção da história. Durante horas retirei bocadinhos de som que, ligados, fizessem sentido e tivessem força. Um dia de folga, sentei-me em casa, retirado, às seis da manhã e escrevi todo o texto, acabando à meia-noite. Foi ao mesmo tempo doloroso e alegre... depois, juntamente com o Raúl Resendes , estudei, escolhi e seleccionei as músicas, a envolvência desejada para o clima pretendido... e ainda recordo: eu e ele, que "amamos aquela gente”, parando as gravações no silêncio das altas horas da madrugada e chorando.
Arrepia ouvir os cânticos da procissão de velas, o sermão da pesqueira, os foguetes... Assim perpetuámos alguns nomes de grandes homens do mar e da terra."
A vantagem do CD
Como a reportagem tem cerca de uma hora e o original é apenas uma versão audio , o formato CD tem a vantagem de se poder escolher e ouvir qualquer parte da reportagem (que está dividida por capítulos), ouvir e acompanhar com leitura em Português, Francês ou Inglês, textos devidamente ilustrados por fotografias e animações. Além disso, segundo explicou o autor, aproveitando as novas tecnologias, foi melhorada significativamente a qualidade global do som.