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  Picoazores.com - História - Composição Social
Composição Social

Ao longo dos séculos XVI e XVII, as informações que nos permitem uma aproximação ao tecido social picoense provêm essencialmente das crónicas açorianas. Estas descrições não só nos fornecem a imagem de uma comunidade que reproduz o modelo social global, isto é, o de uma sociedade de ordens, comum ao reino e às outras ilhas do arquipélago, como conferem particular destaque aos grupos sociais superiores, valorização esta que é uma das características das obras literárias e das crónicas da época. A pirâmide social, encimada pela gente nobre, comprova a preponderância de indivíduos abastados e poderosos. Assim, Gaspar Frutuoso refere que a vila das Lajes foi colonizada por "(...)gente nobre e rica, de nobres apelidos, Madrugas, Lemos, Leias. Crementes(sic) e Gulartes" [103] . Frei Diogo das Chagas e o Padre António Cordeiro reforçam a ideia da estrutura oligárquica da sociedade picoense. Enquanto o autor florentino valoriza a intervenção e a conduta dos homens-bons lajenses, que desde cedo respondem às exigências dos primeiros centros habitacionais, o padre terceirense, na linha do Doutor Frutuoso, descreve a ilustre genealogia dos colonizadores [104] . Este grupo, que dominava a sociedade picoense, afirmava o seu estatuto social através de um modo de vida que partilhava com os seus iguais de outras ilhas. Isso mesmo nos diz Gaspar Frutuoso, ao referir-se a uma das figuras mais proeminentes do Pico no século XVI, André Rodrigues. A descrição que dele faz o cronista é elucidativa: "Houve também na mesma ilha, da banda do sul, na vila das Lagens, freiguesia do Espírito Santo, um André roiz, o mais rico de toda a ilha, de que procedeu a geração dos Madrugas, que ali agora são os monarcas. Este André Roiz vivia com muito mais aparato que todos e se carteava com Pedreanes do Canto, que era o principal da ilha Terceira, e com Jos Dutra, capitão do Faial, cada um dos quais, em cada uma das ilhas em que vivia, fazia o que queria" [105] .A elitização da comunidade picoense no período da colonização prolonga-se no decurso da centúria seguinte, contudo é possível igualmente detectar uma óbvia maioritária presença de estratos de "menor" relevância social. Esta realidade encontra-se definida desde o arranque do povoamento ao prolongar a estrutura social do reino. Assim, Frei Diogo das Chagas, ao falar de uma lista de contribuintes, permite-nos confirmar que, nesse ano de 1506, dos 45 moradores da ilha apenas quatro indivíduos, Pedro Anes do canto, que não vivia no Pico, Fernando Álvares, o já por nós citado André Rodrigues e Pedro Anes Macário, tinham rendimentos superiores a 2 200 réis. Abaixo deste núcleo restrito de ricos e poderosos, ficava o grosso da população, onde se incluíam os mesteres, os criados e os indigentes [106] . No respeitante à estrutura social, atendendo ao factor profissional e reparando na classificação de 83 oficiais examinados na vila das Lajes, no mês de Julho do ano de 1773, concluímos que o grupo predominante era o dos sapateiros, depois carpinteiros, alfaiates, tanoeiros carpinteiros e pedreiros, torneiros, pastores, etc. Nos restantes concelhos, com uma maior predominância da economia vinícola, pensamos, como hipótese plausível, que os dados relativos aos ofícios mecânicos demonstrariam a possível existência de um maior número de oficiais de tanoaria. Do que atrás ficou exposto, parece-nos que ao longo do período em análise a orgânica social picoense tende a reforçar o perfil de uma comunidade remediada ou mesmo pobre, isto porque através de uma análise tipológica de alguns crimes praticados nos finais do século XVIII, leva-nos a deduzir que a maioria das infracções realizadas se circunscreviam a furtos de bens alimentares, os denominados "crimes formigueiros". No primeiro caso, salientam-se Amaro José, que em 1780 é acusado de ter ceifado milho no cerrado de José Alvernas; Veríssimo Pereira de Oliveira, que em 1787 é julgado por furto em "(...)terras alheias a lenhas e Rais de Jnhames(...)" e João Neves, que em 1797 é condenado por roubo de nabos na propriedade de Manuel Ferreira de Moraes [107] .

Numa análise da composição humana à luz de um factor étnico-religioso, encontramos na documentação alusões à presença de judeus no Pico desde os inícios da colonização. No relato de Frei Diogo das Chagas, a actividade dos judeus no Pico condizia com a sua tradicional função, servindo como elos entre o reino e o comércio local. A ausência de mais dados impossibilita-nos uma melhor elucidação desta temática, mas ainda registamos a presença judaica um pouco mais tarde, onde, com base num documento de 1604 relativo à finta a que eram obrigados os cristãos-novos moradores nas ilhas, podemos constatar a presença de dois casais judeus no Pico [108] . Finalmente, e ainda no domínio da questão racial, refira-se que encontramos indícios da presença na ilha de escravos negros ou mulatos na viragem do século XV para o XVI [109] .Estes serviam como pastores e, se constituíam um elo fundamental da estrutura económica que a sociedade picoense assumiu nos primeiro tempos, não deixavam de ocupar o lugar mais baixo da hierarquia social.


[103] Cf. Gaspar Frutuoso, Livro Sexto das Saudades da Terra(...), pág. 289

[104] Frei Diogo das Chagas, Op. Cit., pp. 511-512. Padre António Cordeiro, Op. Cit., pp. 478-479

[105] Cf. Gaspar Frutuoso, Livro Sexto das Saudades da Terra(...), pág. 302

[106] Frei Diogo das Chagas, Op. Cit., pp. 514-518

[107] Biblioteca Pública e Arquivo de Angra do Heroísmo, Arquivo Judicial do Pico, Crimes, maço 1, 1º ofício, doc. nº.3, 7 e e19

[108] Cf. José Olívio Mendes Rocha, "Subsídios para o estudo das gentes de nação(cristãos-novos) nos Açores na 1ª metade do século XVII", in Os Açores e as dinâmicas do Atlântico. Do descobrimento à II Guerra Mundial, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1989, pp. 493-517, maxime: 497-498

[109] Cf. José Damião Rodrigues e Rui Cunha Martins, "A construção de um espaço: os Açores e o olhar do poder central" in O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV e XIX, Actas do Colóquio Internacional realizado na Horta, 1994, Horta, Núcleo Cultural da Horta, 1995, pp. 75-83

 

 

Gene Neves

 

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