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Descobrimentos

A primeira referência da Coroa portuguesa sobre as ilhas açorianas é a carta régia datada de 2 de Julho de 1439. Esta autoriza o Infante D. Henrique a colonizar as 7 ilhas já conhecidas, com excepção para as do grupo ocidental, Flores e Corvo [8] .O processo de colonização iniciado pelo Infante, é reforçado por D. Pedro em 1443, quando os moradores insulares são isentos do pagamento da dízima de todos os produtos exportados para o Reino [9] .Depreende-se deste modo que, no ano de 1439, o Pico já era conhecido pela Coroa, embora se ignore a data exacta do seu achamento e o nome ou nomes dos seus descobridores. Os testemunhos dos cronistas açorianos também não nos auxiliam a elucidar a questão da descoberta do Pico. De facto, a obra de Gaspar Frutuoso não aponta qualquer data ou nome relacionados com este assunto, referindo o autor apenas que, segundo certas opiniões, o Pico foi descoberto nove anos após o Faial, enquanto outras indicam uma diferença naturalmente menor [10] . Diogo das Chagas é igualmente parco nas informações que dá sobre este tema. Aludindo à tradição oral, o cronista menciona que a montanha do Pico terá sido observada pela primeira vez pelo capitão da ilha do Faial, quando este se encontrava: "(...) hum dia da sua janela lauando as mãos(...)" [11] .O Padre António Cordeiro acrescenta, todavia, uma opinião pessoal no que respeita à cronologia. Assim, este autor refere que o Faial foi descoberto após o ano de 1450 e que na década seguinte o Pico já seria conhecido [12] .

Em suma, apenas podemos considerar que a coroa portuguesa terá sido notificada sobre a existência da Ilha maior em meados do século XV, conjuntamente com o Faial: a proximidade entre as duas ilhas e a relevância da montanha picoense são elementos que não nos permitem credibilizar a ideia de um desfasamento cronológico no que respeita à descoberta de ambas. Se nos é impossível datar em concreto o ano da identificação do Pico, também nos é complexo definir a data inicial da sua ocupação. A expressão utilizada por Frei Diogo das Chagas, quando refere a abordagem do primeiro povoador na ilha, é: "uindo a buscar" [13] .Desta forma, o cronista parece indiciar a existência de um natural intervalo temporal entre a descoberta e o primeiro período da colonização picoense. O certo é que apartir de 1470, dado que o arquipélago se revelava como centro importante de apoio à empresa das descobertas e visto que o poder central, através do regime senhorial, efectiva esforços para o domínio das novas conquistas atlânticas, observa-se um processo de consolidação do povoamento nos grupos oriental e central dos Açores.

No que respeita ao Pico, o interesse senhorial em atrair e fixar os primeiros habitantes encontra dificuldades. Numa carta de D. Beatriz [14] datada de 28 de Março de 1481, a infanta prorroga, apenas até Setembro do mesmo ano, o prazo de domínio do seu primeiro capitão, Álvaro d'Ornelas, com a única condição de que este povoe ou mande povoar a ilha. Quando este não cumpre o estipulado, D. Beatriz transfere a capitania do Pico para outro beneficiado, o capitão da ilha do Faial, Jos Dutra [15] . Contudo, atende-se nas palavras da infanta dirigidas e este último: "E não a querendo pouoar de gente me pras que elle a reparta para creação de gado aos moradores da dita Ilha do fayal que tragam nella seus gados empero (sic) se depois o dito senhor ou acharmos alguem que a queira pouoar Eu lha possa dar E elles tirem logo seus gados (...) [16] . Comprova-se, portanto, a lentidão do processo colonizador picoense, o qual é secundarizado face a interesses de ordem económica, designadamente a actividade pastoril. A partir de finais do século XV, o processo de instalação de capital humano na ilha solidifica-se. O Padre Manuel Luís Maldonado estipula a data de 1490 para o estabelecimento da primeira povoação pois, considerando que o faial fora povoado cerca de 1450, afirma que "(...)não he de crer que estiuessem estas terras à vista huãs das outras mais de trinta annos, sem se tratar dellas" [17] . Frei Diogo das Chagas fornece-nos outras informações, identificando o primeiro colonizador como Fernando Álvares Evangelho, que alcançou a ilha pelo lado Sul, na zona das Ribeiras. Assim, verifica-se que o primeiro núcleo habitacional picoense se centrou nos lugares das Lages e Ribeiras. Provavelmente, as razões que terão motivado tal fixação prendem-se com o facto desta área usufruir de temperaturas um pouco mais elevadas que o resto da ilha, formando quase que um micro-clima, e por gozar de uma faixa costeira menos arriscada ao desembarque.

 


[8] "Carta de D. Afonso V, de 2 de Julho de 1439 - Licença ao Infante D. Henrique para povoar as sete ilhas dos Açores", in Manuel Monteiro Velho Arruda, Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores, Ponta Delgada, Oficina de Artes Gráficas, 1932, pág. 121

[9] "Isenção de dízimo e de portagem de todos os géneros exportados dos açores, por D. Afonso V", in Arquivo dos Açores, Volume V, pág. 97 

[10] Cf. Gaspar Frutuoso, Livro Sexto das Saudades da Terra(...), pág. 507

[11] Frei Diogo das Chagas, Op. Cit., pág. 508

[12] Cf. António Cordeiro, Op. Cit., pág. 469

[13] Cf. Diogo das Chagas, Op. Cit., pág. 507

[14] D. Beatriz é a administradora da donataria das ilhas por falecimento de seu marido, o Infante D. Fernando, e durante a menoridade dos filhos, os duques de Beja e Viseu.

[15] Cf. "Cartas das capitanias da Ilha do faial e da Ilha do Pico a Jos Dutra - de 21 de Fevereiro de 1468 e 29 de Dezembro de 1482", in Manuel Monteiro Velho Arruda, Op. Cit., pp. 154-155

[16] Ibidem

[17] Padre Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrense, Volume I, transcrição e notas de Hélder Fernando Parreira de Sousa Lima, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1989, pág. 127

Gene Neves

 

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