Desde o início da colonização que o desenho retalhado da orla picoense, adicionado à instabilidade dos ventos, característica meteorológica insular, dificultou a acessibilidade terrestre. Este óbice é já mencionado por Frei Diogo da Chagas, quando afirma que o primeiro elemento humano a desembarcar na costa sul, Fernando Álvares Evangelho, foi abandonado pelos seus companheiros devido ao mau tempo que no momento assolou a ilha. Segundo as informações deste, as dificuldades da orla mantiveram o primeiro habitante isolado pois, "No cabo do anno tornarão os Companheiros a buscar a Ilha polla mesma parte, e uindo com milhor maré, e elle [Fernando Alvares Evangelho] já estaua pratico na Costa emcaminhou os pera o porto(...)"
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No Pico, a ausência de um ancoradouro naturalmente seguro traduz-se na proliferação de calhetas existentes ao longo da faixa costeira insular.
Desde cedo que os primeiros contactos com a terra picoense foram igualmente sujeitos a condicionalismos de ordem climática e geológica. O clima, varia entre o húmido e o muito húmido na zonas mais elevadas, com uma média de cerca de 75% e regista temperaturas que oscilam entre 12º e 20º c. Só a título de curiosidade, na primeira década do século passado, António Ferreira de Serpa exalta os benefícios do clima picoense, realçando a benignidade da temperatura da ilha montanha, o ar isento de pó, a bela e abundante vegetação, considerando estes factores características excepcionais para a construção de sanatórios adequados à recuperação da tuberculose
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.A pluviosidade é mais abundante na zona Norte, a qual é também a costa mais abrigada dos ventos de quadrante Sudoeste e Oeste. O mês de Janeiro é o que regista maior nível de precipitação e o de Julho o menor. Os solos da ilha, peculiarmente porosos, facilitam a rápida absorção da precipitação o que se traduz na parca existência de ribeiras e de riachos. Por consequência, no passado o abastecimento de água doce era sazonal e regulado precisamente pelas épocas de maior pluviosidade. Esta circunstância não só obrigou as populações a diferentes estratégias com vista à obtenção de água, como condicionou a localização inicial do povoamento. Aliás, Gaspar Frutuoso ilustra estas situações quando afirma que: (...) não há ribeiras correntes, nem fontes, além do que está contado, senão algumas fontinhas pequenas, que nascem nos cumes das serras ásperas, onde se vai buscar alguma pouca de água, que custa muito trabalho por os caminhos serem fragosos e compridos, às vezes de três léguas, e trabalhosos; e por esta rezão alguns no mato, e nas partes onde vivem, fazem riscos nos trncos das árvores e, pondo nela umas jarras, cabaças, ou tinas, se estão enchendo, enquanto chove de dia e de noite, e principalmente fazem isto nos louros, porque acham ser melhor e mais sadia água que outra nenhuma (...).(...) há muitos homens que edificam suas moradas, em que vivem, em parte onde há louros, antre os matos, por rezão de alli se poderem aperceber de água pera beberem(...)
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O desenho geológico do Pico confere-lhe uma topografia distinta, na qual distinguimos duas áreas principais. Numa, os solos são predominantemente constituídos por basalto recente, pouco meteorizados, os quais conferem à ilha um retrato negro: são os terrenos vulgarmente denominados "Mistérios" ou "Biscoitos". Noutra, observam-se extensos arvoredos e matos, factores caracterizadores da economia picoense.
Desde o início da colonização que a relação entre o espaço e o homem reflecte-se na vivência picarota. Salientemos, como exemplo, os embaraços sentidos nos transportes internos, como diz Gaspar Frutuoso testemunhando "(...) não haver na ilha do Pico outro caminho por onde se ande senão o que a corre ao redor, ao longo do mar, e outro que vai, da bando do sul, da vila das lagens pera a vila de São Roque, que está da parte do norte(...)"
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.Também Frei Diogo das Chagas expressa as dificuldades no estabelecimento da comunicação interna nas seguintes palavras: (...)já na ponta do Pico auia pouoação, e que no cabo de tres annos trouxerão hum minimo, que já ueio por seu pé a bautizar a Villa das Lagens, que tam aspera era a Ilha, que estauam aquelles pouoadores tres annos sem uir a parochia(...)"
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. Esta realidade conduziu a uma distribuição fragmentada das gentes ao longo das costas da ilha, como bem descreve mais tarde o Padre António Cordeiro, quando afirma que:(...)nem delles[moradores] ha algum lugar de povo junto, & separados vivem(...)
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. O enquadramento humano na ilha foi igualmente determinado pelas erupções vulcânicas que fustigaram o Pico diversas vezes no decurso dos séculos. Assim, o terramoto de 1562 obrigou a população da Prainha do Norte a fugir para outras ilhas, nomeadamente para a Terceira e S. Jorge e , entre os anos de 1718-1720, os povos da freguesia de S. João e das áreas envolventes foram obrigados a abandonar os locais onde moravam
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As descritas características do meio físico picoense são, sem dúvida, um importante suporte estruturador da história do Pico. Adicionado a este dado, há que tentar definir qual a influencia e quais os rumos da acção humana na ilha.
[1]
Frei Diogo das Chagas, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, dir. Artur Teodoro de Matos, Angra do Heroísmo - Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais- Universidade dos Açores/Centro de Estudos Gaspar Frutuoso, 1989, pág. 507
[2]
Cf. António Ferreira de Serpa, A Ilha do Pico e a Tuberculose: Carta aberta a Sua Magestade a Rainha D. Amélia, Lisboa, Oficina Typographica, 1905, pp. 5-6
[3]
Gaspar Frutuoso, Livro Sexto das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1978, pág. 300
[5]
Frei Diogo das Chagas, Op. Cit., pág. 531
[6]
Cf. Padre António Cordeiro, História Insulana das Ilhas a Portugal Sugeytas no Oceano Occidental, edição fac-similada da edição princeps de 1717, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura,1981, pág. 473
[7]
"Anno de 1562. Erupção na ilha do Pico" in Arquivo dos Açores, Volume I, pp. 360-367. Carreiro da Costa, Esboço Histórico dos Açores, Ponta Delgada, Instituto Universitário dos Açores, 1978, pp. 21-22.